Está lá, feito cachorro, sentada à beira da plataforma
Estava atrapalhando o passear do povo
E balança as duas moedas que tem dentro da lata
As moedas, precisa ter para fazer barulho
Para incomodar o povo que passa
Mas não compram água nem bolacha
Fazem uma zoada que também não compra compaixão
Lata cheia seria sonho
Mas lata cheia é muito pesada
Lata cheia era barriga cheia e
Depois lata vazia e
Depois barriga vazia
Ajeita os cabelos,
Dá jeito nas costas,
Cruza as pernas sem nenhuma postura
Como chegara ali?
Como ficara cega?
Como é que fora abandonada?
Se que abandonou tudo?...
Muita desconfiança
Ao passo que o passo apressado
Troca a humanidade por indiferença
Desculpe, senhora, não tenho nenhum trocado.
Passo de novo no outro dia
Estaria seu lugar vazio
Não fosse o cachorro sentado, feito gente.
um pouco de Esperança
Em 2021, no Ensino Médio, participei do SLAM ESPERANÇA, organizado pela FLUP (Festa Literária das Periferias). O texto "a Senhora" nasceu para essa ocasião, em que fui motivado a escrever sobre a vivência de mulheres pretas da minha terra natal, o Ceará. Com "a Senhora" e outros dois textos, fui campeão da fase estadual do SLAM e representei o Ceará na competição nacional, ficando em quarto lugar.