Abril, sem data, porque o tempo, depois de você, desaprendeu a contar. Também guardo em mim palavras que não ousaram nascer. Não por falta de corpo, mas por excesso de verdade. Há coisas que, quando chegam perto da luz, não é a vergonha que as esconde, é o medo de que, ditas, deixem de ser inteiras. Em mim, nem tudo vira arte. Algumas coisas ficam em estado bruto, como pedra que ainda não sabe se quer ser casa ou ruína. E você… grande, de presença que ocupava o espaço como se o mundo fosse pequeno demais, não coube nas palavras que eu sabia usar. Havia em você um tipo de delicadeza que não combinava com o tamanho, como se o corpo tivesse vindo antes e a alma tivesse chegado depois, com cuidado, pedindo licença. Eu vi. Mesmo sem dizer. E talvez por isso o silêncio tenha sido o único lugar onde consegui te guardar inteiro. Porque dizer seria diminuir. E eu nunca soube reduzir você a algo que coubesse na boca. Se você me deu um nome que não ousou existir na luz, eu te dei ausência, que é ...
Ainda estou escrevendo (ou “o que é que acontece com o mundo?” ou “te enxergar um pouco mais como deus te enxerga”)
Fortaleza, junho de 2026 c’est triste d’oublier un ami. Exupery Ainda estou escrevendo sobre tudo isso. Porque lembro daqueles momentos onde nós éramos seres muito mais próximos dos astros do que dos homens, eclipse de nós mesmos. E da sensação de poder levar teu corpo pro céu enquanto teus olhos se ancoram nos meus olhos. Os olhos, que nunca somem da boca do poeta. O poeta que nunca está satisfeito com a vida. E ao te enxergar sob a parca luz da fresta eu era atingido por uma certa noção de grandiosidade, essa de quando se observa a lua e as estrelas, e fica fácil compreender porque os antigos homens acreditavam que os astros fossem deuses. Revisito essas memórias retecidas pela saudade… É muito bonito quando uma paixão nasce, e é devastador quando ela precisa morrer. Esperam do poeta que ele fale mais do que o que é óbvio, mas agora tudo o que sou capaz de dizer é nada pra além do óbvio de que o amor, quando acaba, dói. Parece que eu escrevo muito pouco ...