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Resposta a Dinho, de Gilvando Silveira

Abril, sem data, porque o tempo, depois de você, desaprendeu a contar. Também guardo em mim palavras que não ousaram nascer. Não por falta de corpo, mas por excesso de verdade. Há coisas que, quando chegam perto da luz, não é a vergonha que as esconde, é o medo de que, ditas, deixem de ser inteiras. Em mim, nem tudo vira arte. Algumas coisas ficam em estado bruto, como pedra que ainda não sabe se quer ser casa ou ruína. E você… grande, de presença que ocupava o espaço como se o mundo fosse pequeno demais, não coube nas palavras que eu sabia usar. Havia em você um tipo de delicadeza que não combinava com o tamanho, como se o corpo tivesse vindo antes e a alma tivesse chegado depois, com cuidado, pedindo licença. Eu vi. Mesmo sem dizer. E talvez por isso o silêncio tenha sido o único lugar onde consegui te guardar inteiro. Porque dizer seria diminuir. E eu nunca soube reduzir você a algo que coubesse na boca. Se você me deu um nome que não ousou existir na luz, eu te dei ausência, que é ...
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Ainda estou escrevendo (ou “o que é que acontece com o mundo?” ou “te enxergar um pouco mais como deus te enxerga”)

Fortaleza, junho de 2026 c’est triste d’oublier un ami. Exupery   Ainda estou escrevendo sobre tudo isso.  Porque lembro daqueles momentos onde nós éramos seres muito mais próximos dos astros do que dos homens, eclipse de nós mesmos. E da sensação de poder levar teu corpo pro céu enquanto teus olhos se ancoram nos meus olhos.  Os olhos, que nunca somem da boca do poeta.  O poeta que nunca está satisfeito com a vida.  E ao te enxergar sob a parca luz da fresta eu era atingido por uma certa noção de grandiosidade, essa de quando se observa a lua e as estrelas, e fica fácil compreender porque os antigos homens acreditavam que os astros fossem deuses. Revisito essas memórias retecidas pela saudade… É muito bonito quando uma paixão nasce, e é devastador quando ela precisa morrer. Esperam do poeta que ele fale mais do que o que é óbvio, mas agora tudo o que sou capaz de dizer é nada pra além do óbvio de que o amor, quando acaba, dói. Parece que eu escrevo muito pouco ...

Oi. (ou "eu falhei e isso me destrói" ou "quando eu descobri o amor, descobri que só ele não bastava" ou "o que foi que aconteceu que eu não vi?")

I'd never live in a small town I've made too many mistakes  I’ve tried very hard to be good  But when they think you're bad, people act worse Mitski Oi. Desculpa aparecer assim. Eu sei que prometi deixar essa história morrer.  Mas eu não consegui vencer a dúvida. Na minha cabeça esse amor nunca acabaria criando feridas. A gente vai fazendo as coisas do jeito que dá. Algumas coisas a gente faz sem saber muito o porquê, outras coisas a gente faz achando que conhece a razão. E há outras que a gente sabe a intenção que tem, mas simplesmente não controla as consequências. No fim, todas as coisas são meras sombras do que a gente pensa que elas são.  Eu errei e isso magoa você. Eu não pude ser melhor. Eu falhei e isso me destrói. A gente fez o que dava pra fazer. Eu fiz o que dava pra fazer, por mais que agora eu me olhe no espelho e grite “você deveria ter feito mais!”. É que eu não acho que saímos o suficiente, não acho que tiramos fotos o suficiente, que beijamos o sufic...

Tira minha sobrancelha?

Quando comprei um deck de tarô, a primeira pergunta que fiz foi: como você me enxerga? A carta: A Estrela.  Tenho um certo jeito que me impede de passar despercebido nos lugares. Honestamente, basta que eu me permita dar voz ao que a maioria das pessoas resolveria calar e, sem maiores esforços, as pessoas me notam. As pessoas costumam dizer que eu sou como uma estrela. Alguns dias atrás, eu ouvi de alguém que eu, naturalmente, chamava atenção quando entrava em algum lugar. "É como se os outros andassem, mas você voa". Por algum tempo eu quis ser visto como uma celebridade, como alguém importante. Mas isso é porque eu mesmo nunca havia me encarado como uma pessoa valiosa o suficiente pra receber algum tipo de reconhecimento. E eu gosto de ser celebridade. Gosto de ser notado quando eu já nem preciso me esforçar pra ser notado. E penso que já não precisei ser outro alguém pra ser notado, mas precisava apenas agir com um pouco mais de confiança. Terei eu me tornado outro se meu ...

Luzes no Oeste

As luzes da cidade se acenderam novamente com o cair da tarde. Novamente o Sol se pôs em seu leito laranja no horizonte oeste de Fortaleza. O Sol se põe no oeste. O Sol se põe em Fortaleza e, depois, se põe na Caucaia, e nos horizontes pra além das praias de Fortaleza e de Caucaia. As luzes do Oeste se acendem novamente, se confundem umas com as outras, não se sabe onde começa o Oeste, onde ele termina, sabe-se unicamente que o Sol se põe pra lá. Nem todas as tardes são iluminadas como as tardes de céu laranja. As manhãs de céu laranja, não as vemos, porque dormimos de olhos fechados. Mas as tardes estão lá, mesmo se não estiverem laranja, bem como a certeza da passagem das coisas, dos finais, das conclusões, da morte: eu não vi quando nasci, mas certamente verei quando morrer. E eu não sei arriscar dizer em que momento nasce um amor. Eu sei dizer quando ele morre, porque eu vejo morrer algo em mim. Porque eu vejo se pôr o Sol no Oeste, deixando seu rastro laranja no céu, como quando o...