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Tira minha sobrancelha?

Quando comprei um deck de tarô, a primeira pergunta que fiz foi: como você me enxerga? A carta: A Estrela. 

Tenho um certo jeito que me impede de passar despercebido nos lugares. Honestamente, basta que eu me permita dar voz ao que a maioria das pessoas resolveria calar e, sem maiores esforços, as pessoas me notam. As pessoas costumam dizer que eu sou como uma estrela. Alguns dias atrás, eu ouvi de alguém que eu, naturalmente, chamava atenção quando entrava em algum lugar. "É como se os outros andassem, mas você voa".

Por algum tempo eu quis ser visto como uma celebridade, como alguém importante. Mas isso é porque eu mesmo nunca havia me encarado como uma pessoa valiosa o suficiente pra receber algum tipo de reconhecimento. E eu gosto de ser celebridade. Gosto de ser notado quando eu já nem preciso me esforçar pra ser notado. E penso que já não precisei ser outro alguém pra ser notado, mas precisava apenas agir com um pouco mais de confiança. Terei eu me tornado outro se meu antigo eu era parte inconfiança? 

É difícil ter confiança em si mesmo quando você passou a vida toda sendo o último da lista de chamada, o último da fila..; quando coisas boas raramente aconteciam e, quando aconteciam, você sentia que não merecia isso… Eu, até hoje, não sei muito bem dizer obrigado. Fui essa criança meio carente de atenção e esse adolescente carente de carinho. E sou o reflexo dessas coisas agora adulto. O adulto é a maior mentira que os adultos inventaram, mesmo porque os inventaram antes de inventarem a criança, e a criança era, aliás, a única invenção possível, porque quem não se sente uma criança ao menos uma vez ao dia deixou-se acreditar nessa bobagem de levar-se a sério demais. E na criança tudo é questão de sentir. Nós somos sentir (o tempo todo). E eu, talvez, esteja escrevendo tudo isso pela vontade de ser de verdade.

Evito encarar as pessoas. Minhas sobrancelhas são acentuadamente assimétricas. Preciso me sentir muito à vontade com alguém pra conseguir simplesmente existir em silêncio, olhando nos olhos, sendo visto de volta. E, ainda assim, me vejo refletido nas pupilas do outro e sinto vergonha. 

Recuso a oferta do barbeiro pra tirar o excesso, tenho medo de que ele acabe piorando tudo, tenho medo de que ele perceba minhas imperfeições. Não fico muito em silêncio, uso óculos, essas coisas que tiram atenção das torturas do meu rosto. Mas o que eu mais desejo é poder mostrar meu avesso, onde dói, onde sou podre, quem sou quando não sou estrela. Não saio de casa sem óculos, mas acordo quase pelado. 

E, portanto, não tenho muitos amigos. Agora, tenho menos. 

Porque é só amando que eu consigo vislumbrar um pouco do que é ter paz. Existir sem óculos, olhar alguém em silêncio, ir dormir sem tomar banho, falar as maiores atrocidades do mundo só pelo prazer de juntar palavras que eu jamais juntaria. Porque a gente se sente mesmo muito confiante quando tem o amor do nosso lado. A gente se acha imparável quando sente que é amado. Honestamente, essa não é uma sensação familiar. 

É difícil reconhecer o amor quando ele não vem naqueles grandes atos que os filmes e os romances nos contaram que é amor. É difícil dizer que se é amado quando isso é expresso quase que unicamente pela vontade, silenciosa, que outra pessoa tem de estar próxima a você. Quem de nós pode dizer que conhece as faces do amor? (que são muitas e fugidias...). Quando tiro a sobrancelha, dói. Parte disso é muito subconsciente: dói porque estou sendo visto nas minhas imperfeições, aquelas que eu só queria mostrar pra quem amo muito. A outra parte é a dor física e, ironicamente, não é a que me incomoda mais. Corro o risco de soar como louco se disser, inclusive, que sinto falta da dor física da pinça nas sobrancelhas. Felicidade é muita coisa, amor é muita coisa (ou pode ser muitas coisas). A dor, entretanto, é muito, muito facilmente reconhecível: uma pinça estica minha pele, arranca um fino fio de cabelo da parte mais delicada da minha pálpebra, e eu sinto uma ardente vontade de gritar. Eu sei que é dor. Nada de confusão, nada de meias palavras, nem preciso chorar, porque estou satisfeito em ter certeza de que sei o que é que estou sentindo. 

Faz sentido quando minha psicóloga diz que encontro conforto na dor e, por isso, não sei lidar com a paz. Quando está tudo muito calmo, eu penso que tem algo errado. Se está tudo feliz, eu acho que não mereço isso. Mas se dói: Ah! eu sei que sentimento é esse, eu sei o que está acontecendo, e a sensação me é familiarmente reconfortante.

Eu me arrependo da confiança que um dia achei que tinha. Me arrependo de estar bêbado suficiente pra dizer “eu te amo” mas ter ficado em silêncio. Eu me magoo tanto que me responsabilizo até pelo que não estava no meu controle. A gente se sente mesmo muito impotente quando acha que o fim é o final. E quando parece que eu finalmente entendi tudo, na verdade eu só estava com sono. Entretanto eu evito ao máximo ir dormir, porque sei que amanhã a mesma dor recomeça. 

O que é meu é de mim: minha dor, as consequências dela. Meu amor, os confortos dele. Minhas imperfeições gritando pra serem vistas mas esbarrando na inexistência do amor. Eu penso que se eu sustentar amar alguém por mais tempo, mesmo quando esse alguém já tiver me esquecido, seguido em frente, isso vai me redimir por todas as vezes que não fui honesto comigo mesmo. Isso vai provar que eu sou capaz de levar alguma coisa até o fim. Isso vai me fazer sentir que eu finalmente fui capaz de vencer a mim mesmo. E, talvez, me fazer sentir que, apesar de toda a podridão contida no meu avesso, eu sou merecedor de ser visto como uma estrela.