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Ainda estou escrevendo (ou “o que é que acontece com o mundo?” ou “te enxergar um pouco mais como deus te enxerga”)

Fortaleza, junho de 2026

c’est triste d’oublier un ami.

Exupery 

Ainda estou escrevendo sobre tudo isso. 

Porque lembro daqueles momentos onde nós éramos seres muito mais próximos dos astros do que dos homens, eclipse de nós mesmos. E da sensação de poder levar teu corpo pro céu enquanto teus olhos se ancoram nos meus olhos. 

Os olhos, que nunca somem da boca do poeta. 

O poeta que nunca está satisfeito com a vida. 

E ao te enxergar sob a parca luz da fresta eu era atingido por uma certa noção de grandiosidade, essa de quando se observa a lua e as estrelas, e fica fácil compreender porque os antigos homens acreditavam que os astros fossem deuses.


Revisito essas memórias retecidas pela saudade…

É muito bonito quando uma paixão nasce, e é devastador quando ela precisa morrer. Esperam do poeta que ele fale mais do que o que é óbvio, mas agora tudo o que sou capaz de dizer é nada pra além do óbvio de que o amor, quando acaba, dói.

Parece que eu escrevo muito pouco quando estou feliz, parece que escrevo muito quando estou triste... Pra mim, escrever é como respirar. Eu diria que, se eu tivesse que nunca mais escrever pela felicidade de ter o amor comigo, eu me deixaria sufocar pela sua presença.

Mas acho que enxerguei a possibilidade de construir um tipo de amor onde abundância de sentimento não necessariamente implicasse haver intensidade de demonstrações. E, por isso, eu temo que nem posso dizer que você vai sentir falta do meu amor, porque eu também sinto que não te amei como gostaria. 

Já não me encontro mais no platô de paraíso pra onde nos levam as paixões. Pelo contrário: voltei novamente a essa dolorosa e familiar câmara escura onde o amor nos deixa pra que a gente se recorde (não gentilmente) que amor e dor estão sempre muito próximos um do outro.


I can see the world in a different light
Now it's easy to say
Where I went wrong
And what I did right

Alan Parsons 

E quando eu estou realmente triste, eu ouço as canções que já foram a música das nossas ternas memórias. É curioso ver como elas já eram, desde o começo, músicas tristes: quem sabe isso queira confirmar que a beleza das coisas vem mesmo de dentro da gente. E eu não me arrependo de amar, de ter amado... Mas queria que olhar o mar e o azul do dia fosse, por mais uma vez, simplesmente olhar o mar e o azul do dia. Que houvesse apenas a beleza de admirar também as rodas bonitas de um carro, sem que essa beleza viesse acompanhada da imensidão esmagadora da ausência.

Ainda há a coisa mais difícil de fazer encontrar seu espaço em mim. O desejo genuíno de conhecer o teu mundo, porque eu sei que isso me apaixonaria ainda mais pelo próprio mundo, ele mesmo. É que eu queria muito ter ido mais longe com você sem ter que te puxar pela mão. Porque, uma vez que eu decidi partir, eu fui sozinho. Eu estou sendo injusto no que digo? 

Me entristeço quando penso que sempre teremos as marcas das nossas feridas, e que elas nos espreitarão no escuro da possibilidade de se abrirem quando menos esperarmos. Será que as minhas respostas vão ser suficientes pra você? Será que eu vou conseguir dizê-las sem deixar que elas me engulam? 

You don't ever have to
Act cooler than you think you should
You're brighter than the brightest stars

Lana del Rey (California) 



Se não há limites naquilo em que podemos acreditar, eu diria então, benzinho, que essa cidade se formou pra nós: pra que pisássemos no mesmo chão empoeirado em que tristes almas andaram e cujos passos refizemos, outrora em alegria.

Em algum momento a gente acaba lúcido o bastante pra dizer que a gente cresce dos amores doídos, e que somos capazes de fazer restar o que foi bom.

Se uma hora a gente aprende que nada dura pra sempre, sou feliz porque, por você, eu me permiti acreditar outra vez que o amor durava. Sou feliz porque, por você, eu quis, por mais uma vez, que o amor durasse pra sempre. 

Mas se essa cidade não foi feita unicamente para nós, foram felizes os dias em que, amando um ao outro, fomos nós os responsáveis por fazê-la menos triste.