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Algumas palavras

Estou de mal com algumas palavras. Já faz um tempo que noto minha desavença marcial com certas entradas do português nosso. Pois me deixe começar logo daí: Português não, Brasileiro, que português é outra coisa lá do outro lado do Atlântico. E com isso não quero firmar novas desavenças, mas apenas verbalizar o que todo mundo já sabe: das bandas de cá do mundo se fala brasileiro. Quero deixar claro que meu desassossego é com palavras!

Agora me ocorre uma grande inquietação com a palavra Inconveniente e seus primos todos. Essa palavra é um saco! Junto de Obsessão e de seu irmão Obcecado, gêmeos bivitelinos.

Inconveniente é uma lástima metalinguística: a própria palavra é um embargo em si mesma, porque eu nunca consigo escrever essa droga certo, de forma que digito já esperando o corretor automático me dar nos nervos com essa linha vermelha embaixo, e já vendo ela me sobe um sangue, e sendo escritor com as palavras me entendo, e no ato da raiva já decidi que vou escrever incoveniente, que é como é mais coveniente pra mim: pra dizer e pra escrever!

Obsessão e Obcecado é outro infortúnio: os mais atentos já viram o porquê. A profissão da irmã é substantivo e o irmão trabalha de adjetivo (certo que faz uns bicos de verbo particípio, mas isso, no fundo, dá no mesmo). O problema é que ninguém os enxerga imediatamente por seus ofícios, e porque têm essa semelhança que é muita, mas é escorregadia! São irmãos de placentas diferentes: uma com s e ss, outro só com c. Que complicação! Eu arrisco dizer que são quimeras de um Dr. Frankenstein, com tantas experimentações que têm. Fosse eu o médico do parto, deus me perdoe, iriam direto pra uma plástica, e eu teria algumas soluções: Obceção e Obcecado, ou Obseção e Obsecado, pra mexer nos dois e ser justo. Mas como são opções demais, por enquanto ficarão assim e me serão essa pedra no caminho, junto com uma arruaceira que se inspirou neles: Necessidade.


Outras palavras surgirão quando este texto já tiver sido escrito. Entretanto, quero reclamar de só mais uma: Porém. Não a uso, essa palavra. Ao menos, evito de usá-la ao máximo! Porque Porém não me satisfaz tanto quanto Mas, e me dá essa impressão de um pedantismo desnecessário. "Porém" eu só uso mesmo quando é pra explicar a diferença entre o próprio Mas e seu sósia, Mais. Fora disso, deixo ele na cobertura de seu apartamento, fazendo ioga, escutando jazz e fumando charuto.

Eu sei que o problema é meu, mesmo. Eu é que sou obsecado no incoveniente dessas palavras. Porém, que seria de mim se não fossem elas, as donas do meu ofício? Eu poderia estar viajando a Europa, conhecendo o Português, se tivesse seguido com a ideia de ser advogado, ou médico...

Dei azar de ter essa obseção com o Brasileiro! mas até que divirto no caminho.