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Banquete

Me imagino sendo parte de uma classe artística boêmia, que se encontra em saraus e discute as questões do país cada qual com sua especialidade. Os novos Mutantes, os Doces Bárbaros, o Grupo dos 5.

Os veteranos já têm seu espaço garantido na memória das nossas gerações, e eles mesmos não ocuparam o espaço dos que vieram antes deles, mas arranjaram pra si um lugar novo, porque o novo sempre vem. E os poetas de meu tempo, os cantores de meu tempo, os loucos de meu tempo já não são mais os do tempo de meus pais, e vejo surgir novas faces no horizonte da arte. Teremos tempo de aguardar que o novo venha? 

Tento me esquecer da desesperança e do medo, porque a arte é a flor que nasce no fim do mundo, e eu devo ter coragem de fazê-la desabrochar, ou devo apenas me divertir um pouco mais. 

Eu me imagino nesse banquete simbólico com meus amigos artistas, porque nós é que seremos os rostos em erupção no horizonte. Seria mais ou menos assim:

Estaríamos todos num apartamento grande. Uma luz amarela e vários quadros na sala espaçosa. Jarros bem fartos com jiboias, samambaias, bromélias, costelas de adão, espadas de São Jorge, coração de Jesus. Teríamos vinho branco ao centro, e cerveja bem gelada num balde. Janelas gigantes no entorno, deixando o vento de Fortaleza entrar. Sim, porque de tempos em tempos a arte se reinventa, e agora nada mais de Rio de Janeiro: a capital da arte do Brasil será Fortaleza. Agora nada de celulares, só o bom papo e a asneira. Sim, porque a arte que rompe, também retoma costumes passados.

O mais velho de nós seria o Gabriel, com sua poesia de corpo inoperante. E então Angela e Dori, palavra-viva e fotografia. O Artur senta sozinho numa poltrona, porque não existe classe artística sem cantores, e os cantores são assim mais estrelistas. Tenho outros nomes em mente pra ocupar os lugares desse imenso banquete, mas deixo no ar pra que eu não me comprometa. Um jornalista, um artista plástico, um mecenas também, mas aí tem que ver, porque alguns estão de mal e essas rupturas não pegam bem. Eu estaria sentado mais à esquerda, que é o lado mais bonito do meu rosto.

Que nome teríamos? Não que nos arriscaríamos numa unificação, mas eu gosto de pensar que nos darão um nome em função da nossa geração. No momento em que escrevo já cansei de imaginar, e não penso em muitas opções boas... me agrada, já que o mundo está acabando e eu tenho essa ousadia de fazer arte, me agrada, num primeiro momento: a Flor do Fim do Mundo.

De Fortaleza, o Brasil semeia uma arte nova. E nós comeríamos pratinho, filé, arroz à grega, pastel de queijo e mousse de maracujá nesse banquete.