Aquilo que mais me chamava atenção no poder do tempo sobre o mundo era, de longe, a mudança na roupa das casas, trocando de casaco como camaleões, de pele como cobras, o que faz parecer quase natural o rearranjo das cores, das portas, das janelas e fachadas. Cada vez que volto aas ruas gosto de perceber o rastro de nostalgia pintado nos muros, apagado com a padronização dos apartamentos tediosos, da tristeza ao perceber menos (quase inexistentes) árvores, da paisagem que é a primeira coisa que muda ante a mudança nos rostos, nos cabelos, nos dedos das mãos, crescendo como galhos de pitombeira nos meses de janeiro. Vejo tudo isso nos intervalos em que retorno de tantas andanças que tive a procura de pouso.
Esse pouso a que me refiro é mais que uma parada, porque já estive muito de um lado e de outro, parando periodicamente pelo limite que me faz humano.
No último ano não sei mais o que é casa, porque não fundei os pés num lugar que pudesse sentir que sei o que é casa. Estive na casa dos meus pais, que já não é mais a minha, na casa do Ivan e na casa da minha tia, que é casa do marido dela. Na verdade, se contar pelo tempo que passo em cada lugar, posso dizer que moro nos ônibus e que vivo nos instantes de uma e outra parada.
Tenho feito de tudo para sair de casa e despendido igual esforço pra encontrá-la.
A casa dos meus pais é só isso. A do Ivan tem um chuveiro com água farta e cantos limpos, sem areia. As paredes são confortavelmente brancas e há uma paz inquieta. Mas a casa do Ivan é longe pra ir a pé, e pra pagar, porque é tudo dele. Da casa da minha tia, restou lembrança do quarto desarrumado e do motim dos passarinhos cativos, chorando atrás das grades sujas que eu tinha que limpar, raiva sim, raiva não.
Tenho pensado em me revolucionar também. Voar desarrazoado, até trepar num canto com sombra, paredes brancas e um gatinho. Tenho sido louco! Quero uns jarros de folhas, quadros de fotos e uma cama com dois travesseiros: um pra minha cabeça e um pro meio das pernas. Sou tão louco que quero esse teto só pra ver se afago esse fogo de paz que quero. Esse chão de liberdade que quero. Não, não é tanto em fazer o que quiser, mas é querer e decidir se posso ou não. É em querer voar e querer voltar, que é tão importante querer, mas é um querer que não tenho tido.
Quero querer voltar pra um lugar em que eu possa ser eu, porque tenho sido outro nos lares alheios. Tenho sido alheio a mim mesmo, fracionado em pedaços que parecem nunca mudar nos olhos dos outros. E eu mudo tanto quanto as casas, quanto os camaleões... mudo tanto quanto as cobras. Não sou mais criança e, no entanto, continuo criança em algumas casas que vou. Amadureço cada vez mais com as obrigações impelidas pelos ares em que voo e, no entanto, continuo pitomba verde, como em dezembro. Sempre estive só de passagem, mas talvez tenha amedrontado constância com minha empolgação de ser eu na casa onde mais me senti em casa e, por tanto, de lá não sou mais inquilino.
Trinta, quarenta e sete, sessenta e cinco anos que se passem e, deus queira! que eu já tenha reaprendido a casear, minha maior e mais honesta dor será, sem tom nenhum de dúvida, a mudança na roupa das casas. Todo esse tempo sobre elas vai, de certo, tirar-lhes ainda mais daquilo que já tão pouco têm: sua memória. Digo isso, porque vi a solidão do muro baixo encoberto de flores e de mato, ladeado por blocos cinza, sem cor, sem brilho, sem baixeza no muro. Uma dona saía de dentro, de saia e tristeza, caminhava seus sessenta e um ou mais na calçadinha ousada de larga, se orgulhando de tamanho patrimônio, que o tempo não desonrou.
É do que mais vou sentir falta... já que nada estará do jeito que deixei. Vivo de memórias e com lembranças me mantenho são. Enquanto tão alto voo, ansiando lar, lá do chão a lembrança me puxa, me prende aa marca desse tempo que passou, mas ficou. É por isso que sou tão dependente dessas memórias: elas me são de vasta prova de que vivi e de que não estou louco. De que daquilo que me lembro, só o que eu não sei é que é mentira. E mesmo de cima, vendo o tempo tomar de volta tudo isso que é seu, o que fica do que passa funda a mais bela paisagem que colore minha vida e não me faz desistir de querer voltar pra casa.
