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como posso querer que fique?

como posso querer que tu fique, amigo meu?
se a terra nunca para de girar, e nós giramos junto
se há tantos grãos de areia e todos eles são únicos
se nosso tempo é curto demais e insuficiente pra tudo.

como posso querer que tu fique,
se os nossos pais conheceram outros
antes de conhecerem um ao outro
antes de conhecerem a nós.

como posso querer que tu fique mais um pouco
se outro dia mesmo ainda era sol,
e já estamos caminhando pro inverno
e tu já nem me mostra teu rosto faminto
e já não pode ficar, porque já foi?!

como posso querer que tu fique
tendo o próprio deus chegado e ido embora?

como posso, se as únicas coisas que ficam
se guardam do resto do mundo
e guardar, como diz o poeta, é impedir que o mundo te tenha
e querer que tu fiques, é te negar a presença de outro
em razão somente de minha presença, que é dúbia

como posso, eu, alma vagabunda
que partiu também de vários lares,
que aviuvou tantas preces,
que agora prova de um veneno familiar,
como posso querer que tu fique, se eu mesmo não fiquei na minha vez?

como posso querer que tu fique,
amigo meu,
se tu mesmo não quer ficar?

como posso querer que fiques, não sei...
mas como! como quero!