É tradição nessa empresa de ônibus que todo motorista tenha um apelido e, na maioria das vezes, é um apelido tenebrosamente ruim. Já ouvi algumas atrocidades, dessas que, se pode dizer, privariam um homem de sua própria dignidade. Como é possível, meu deus, que um chefe de família, uniforme e roupa limpa, casa varrida, prato na mesa, esposa e filhos, contas pagas... como é possível que um sujeito chegue em casa e haja naturalmente tendo atendido o dia inteiro pelo apelido de Catacumba?
Naquele dia, um motorista
novato precisava de ajuda, porque ele nunca dirigira um ônibus daquela linha.
Então a empresa mandou um segundo motorista que o ensinasse os macetes do
trajeto e, como se diz, ficasse esperto. “Pra subir aqui, Adalberto, só de
segunda marcha”. “Não para aqui, não, Adalberto: aqui não é parada”. “Cuidado
com a próxima curva, porque ela é muito fechada, Adalberto”... Adalberto isso,
Adalberto acolá... Seguiu-se assim até antes de uma certa parada em que estava
uma senhora e um senhor que deram sinal pro ônibus desde bem longe.
A
força do hábito faz a gente querer dizer que eles eram um casal, mas nesse
instante me recusei a dar essa brecha. Não sei mesmo se eles eram marido e
mulher, mas sei que eram idosos juntos, às seis da manhã, numa parada de
ônibus. Tive o cuidado de melhor interpretar a situação. O motorista ajudante é
que foi bem mais rápido: “Um casal de ‘pardalzinho’ lá na próxima, Adalberto”.
Ainda mais rápido foi a reação de uma senhora, idosa também, sentada na
primeira cadeira. Uma daquelas bem briguentas: “O senhor não tem vergonha?
Desde a primeira parada que eu escuto o senhor chamando os idosos que sobem de
‘pardal’. Que falta de respeito! Tá chamando a gente de animal, é?!”. Eu também ouvi outras frases
clichês do tipo “sua mãe não te deu educação?” de modo que o motorista ajudante
nada pôde fazer em seu constrangimento, apenas pediu pra que ela se acalmasse,
falando que “pardal” não era nada mais que o apelido do novo motorista, e
reafirmava isso como esperança de que a mulher se convencesse. Todo mundo, no
fundo, sabe que o mundo é mesmo feito de palavras. Ele, tolo, teve esperança que
aquelas palavras fizessem mais sentido no mundo da senhora, e que ela o
deixasse em paz. Afinal de contas, “pardal” é gíria pra “velho”?
A senhora não se convenceu, aliás, e dizia que iria processá-lo porque ficara inquietantemente ofendida. O ajudante de Adalberto pediu desculpas rapidamente, mas não se encolheu em sua vergonha e não parou de chamar Adalberto de pardal até que o ônibus chegasse no final da linha. Todo mundo conhece o truque sujo de repetir uma mentira pra torná-la verdade. É assim que construímos o mundo.
Nunca mais vi o dito cujo, nessa linha ou em qualquer outra... despedido, suponho. Azar pra ele
e sorte grande pra Adalberto: pardal nem era um apelido tão
ruim assim...