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Breve Manual dos Passeios

Não, amigo! Passear, se passeia no Benfica... se passeia nos shoppings, se passeia nos museus, nas galerias, nas ruas do Centro. Mesmo nas Estações de Metrô se passeia e, esticando ainda mais a baladeira, até uma ida ao supermercado pode ser um passeio agradável. Na vida dos outros não: na vida dos outros eu nunca estive a passeio. 

Passear, deixe-me dizer: é mais tranquilo. Vestir a cueca, botar o calção, escolher entre as camisetas uma que combine com o tom do dia. De chinela ou de sapato? De sandálias, porque é só um passeio! E então, o quê mais? Apenas vá, que o tempo passa e a vida é um sopro.

A vida da gente pode ser só um passeio, porque a vida mesmo é muito breve. Mas a vida dos outros é um universo à parte em que não se permite a casualidade dos passeios. É porque é sério demais quando uma alma se encontra com outra, e esse momento tão singelo nunca é só mais um de muitos que hão de vir.

O tempo passa, o passeio acaba, mas a vida só começa.

O Benfica ainda estará lá. Os museus e os shoppings ainda estarão lá. As estações de metrô não saem do lugar, e mesmo o trem (que sai) ainda estará lá. As pessoas... essas são únicas e irretomáveis, porque a vida é mesmo muito única e, portanto, não se deve tratar como pouca coisa o momento em que uma alma toca outra.

É por esta razão que não se passeia na vida das pessoas: porque não existe um acaso que lhe permita ter de encontro uma mesma alma mais de uma vez. Eu passo, a vida continua. Mas na vida dos outros, meu amigo, eu nunca estive a passeio.

Foto: Withamy dos Santos