Eu não quero dizer de amor, por isso sou poeta. Dizer eu te amo todo mundo sabe...
As serras, no longe, são silhuetas sobrepostas. Meras sombras na paisagem. Dão essa impressão de contornarem o horizonte e fogem de mim quanto mais me aproximo, quanto mais as quero conhecer. Mas o limite da paisagem não é o limite da minha contemplação. Eu sei que muito longe daqui está um amontoado de serras que não são somente desenhos pintados no céu. E ainda que eu não as veja em sua completude, elas estarão no quadro de outra pessoa. E ainda que essa outra pessoa não exista, ainda as serras virão silenciosas em sua beleza infinda.
As belezas que pousam no horizonte são alheias aos poetas. Os olhos são a sorte da alma, mas não são a razão das belezas. Os olhos apenas vêem. As belezas apenas são. Quem sabe sejam os olhos que fazem um poeta, daí vem o amor.
Não sei se é que todo poeta ama olhos ou se é o amor aos olhos que faz um poeta. Na verdade, nem todo poeta vê, basta apenas que enxergue. Basta que contemple e que permita que a alma sublime as coisas de que sente falta.
A alma do poeta está numa infinita saudade. É por ter tantos infinitos dentro de si, que o poeta é o único ser capaz de tornar as coisas do mundo também eternas. As coisas começam e terminam, mas o poeta compartilha sua eternidade com as coisas, e então basta ser amado pra ser pra sempre. Basta que um escritor te ame e tu viverás eternamente.
A alma do poeta é uma parte que falta. Todo poeta nasce incompleto, e só está inteiro por breves instantes na vida. As palavras do poeta são todas grito: é a alma, inquieta, que quer enfim completar-se. Mas não lhe basta dizer “eu te amo”. Se for possível, por um breve momento, que a alma enxergue no horizonte mais do que uma silhueta, o poeta pára, suspira, e... se cala.
Existe o horizonte e existe o rosto. Existem as serras, e então, os olhos. E eu, poeta, experimento a contemplação que me faz ser quem sou. Antes de amar eu experimento calar-me. E o silêncio já não é mais a falta de barulho, já não é mais o contrário de inquietude. O silêncio é o silêncio. Surge de surpresa, e então eu sei que amo.
Agora te vejo e desvio o olhar: ainda não posso ficar calado, porque isso seria estranhíssimo. Mas quero te ter no maior dos prazeres do amor. Quero ser, apenas, e isso será suficiente. Quero te dar vida eterna. Quero tocar teu horizonte e permitir que a minha alma, em gritos, se cale, completa e muda. Quero te olhar nos olhos e deixar que isso fale. Quero te dar o silêncio.