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E aí daqui a pouco tenho 30

[...] E aí daqui a pouco, tenho trinta. E é mesmo daqui a pouco. O mundo foi se acendendo, se acendendo, mas eu fui ficando com essa impressão de ser sempre, sempre criança. Fui ficando com essa impressão de ser sempre menino. E agora acabo de completar vinte e já não é mais possível esconder de mim mesmo que daqui a pouco já tenho trinta.

Ainda pra mim é muito assustador que eu sobreviva todo dia num mundo que é máquina de matar, ou é a vida que é falha em viver. Ainda é surpresa que eu, tão desfeito pro mundo, tenha feito vinte anos. Mas não me assusta pensar que não chegarei a tê-los os trinta. Me assusta é pensar que sim, eu os terei. E que não vão nem demorar a chegar por aí.

Daqui a pouco vou perder de mim a única coisa das poucas coisas que as pessoas acham bem que eu tenho. E vou encontrar uma solidão de um tipo que só se tem por volta de 27, 29... não é da idade que as pessoas têm medo: é das pessoas que as pessoas têm medo. Porque elas dão umas às outras aquilo que têm, e eu, com 29 não terei para dar aquilo que já dera com 20, porque não terei mais o que dar.

Ainda pra mim o mundo não se revelou senão em sua voluptuosa mesquinhez e impiedade. Assim mesmo os garotos vão passando sempre em sua pressa e procura sem destino certo. É certo que o sentimento de algumas pessoas não se faz cerimônia em machucar. Ainda ontem me vi no espelho de uma cor que não se deseja, de uns olhos que não são bonitos, de uma criança de que nunca se disse: que lindo! e hoje me faço todo o trabalho penoso de olhar nesse espelho e mentir descaradamente... Já hoje pela manhã, meus braços falharam em ser fortes, meu cabelo falhou em ser arrumado. Meu jeito falhou por não ser negão. Minha cueca falhou em ser cheia. E eu tive de, ainda assim, dizer que me amo.

E aí, daqui a pouco, me aparece mais um desses garotos que, com vinte mesmo, têm muito mais do que eu, [...] que foi feito para o mundo da forma certa, na fôrma certa. E eu então vou me atrasar em procurar homens de trinta, que não me querem exatamente a mim, mas querem é, de volta, aquilo que eles tinham quando tinham vinte. É porque, tendo trinta, mesmo tendo tudo, não têm o que, ainda hoje, é uma das poucas coisas que me restam: a juventude.

Daqui a pouco vou ser só isso. Vou ter ninguém. Vou estar no meu nada. Fui ficando com essa impressão de ser sempre vizinho. E, MEU DEUS! Agora mesmo pensei que, ao cabo de completar trinta, já não será mais possível esconder de mim mesmo que daqui a pouco já tenho quarenta.

Foto: Angel Furtado