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Mendigos de gorro

“Melhor não tocar neles” — recuei a mão devagarinho. “É que eles são selvagens, você não sabe se eles estão doentes, nem que doenças podem ter”. Às 9h da noite da sexta-feira, os gansos do parque ainda grunhiam, cansados. Acordados pelo barulho, pela movimentação, pelas luzes... Naturalmente, não haveria luzes que os chateassem se eles estivessem por aí, por onde deveriam estar os gansos. Como efeito da domesticação, da vida que os homens inventaram uns pros outros, agora, ainda às 9h da noite, o parque lotado, os gansos se abitolavam, confusos. 

Alguns deles dormiam tortos, fingindo que ninguém os via sob a luz do poste da praça. Esses, mais impacientes, já aceitaram que são gansos e que nós não nos importamos com eles. Os outros, em estado permanente de vigília, faziam qualquer coisa da sua sexta, que também ninguém se importa.

Estive a passeio no parque. Era sexta no fim de novembro. Soltei por um instante a mão do meu amigo e me encostei na grade. A grade verde cercava o curralzinho em que também se viam patos, pombos, galinhas d'água, garças... A grade me apartava dos bichos já me avisando de que eu não me deveria misturar com eles. Mas ainda que não houvesse grade, aqueles bichos com certeza não se misturariam conosco. Nós também fingimos que eles não estão lá, e é por isso que ainda mantemos as luzes acesas, as caixas de som: é por isso que não os deixamos dormir.

Os gansos, em permanente estado de vigília, comemoram o Natal desde novembro. Em novembro, o poste cuja luz fraqueja, ameaçando queimar, vira um outro item de decoração. Depois da última brisa forte do meio de outubro, já é mais ou menos Natal. A cidade vai se adornando vermelha e verde, e é possível perceber uma mudança íntima do ar das próprias pessoas. 

Ainda em novembro, as vizinhanças vão se emperequetando com suas luzes bruxuleantes. Até dá pra dizer, num esforço, que as coisas ficam um pouquinho mais bonitas. 

Na capital não neva porque seria um caos à parte. Mas ao fim do espetáculo que é o Sol abrindo o horário de pico, os pisca-piscas tomam de conta do Natal e, visivelmente atordoados, os gansos do parque só podem aceitar serem um pouco mais ofuscados e dormirem menos à essa época do ano.

E então “melhor não tocar neles”, que estão já muito estressados com o Natal, em pleno novembro. Deixe os gansos lá. Esses, do parque, são bichos em que não se toca, que não se alimenta, de que não se tem pena. A grade, pelo menos, não está enfeitada de luzinhas. Não haverá ceia pros bichos do parque. Quem tiver bom senso nem mesmo estenderá sua mão, como eu fiz, ou, se estendê-la, recuará depressa pra que não se adoeça. 

Depois da última brisa forte de outubro, alguns ônibus cortavam a cidade enfeitados também. Os motoristas usavam gorro. Como não falar das lojas dos shoppings e suas esplendorosas árvores de plástico de dois, quatro metros... os atendentes usavam gorro. Colabore com o Natal dos funcionários. Não nevava, mas já tudo estava coberto com a poeira mesmo! Nas calçadas, fazendo graça, os mendigos usavam gorro. 

No parque, os gansos grunhiam com um pedaço de pastel jogado no cercado e, dessa vez, ninguém brigou comigo. Ninguém me repreendeu, todos sabiam que eles tinham fome. 

Em novembro, a luz do poste já pisca inquieta. A cidade já está enfeitada pro Natal.