É muito conveniente ter uma barba.
Nós, os jovens, temos tanto pra viver, mas a pressa em ser adulto nos persegue até que um dia não temos mais pressa, mas saudade.
Nessa perseguição, não consigo fugir de pensar que sou jovem demais (e as pessoas se agarram no prazer de me lembrar disso). Pode ser que eu seja uma goiaba amarela, mas dura. Quando olho no espelho, vejo tímidos os poucos cabelos no queixo, que já em outros rapazes são um alvoroço fulgás, e me pergunto se eles tiveram mais pressa que eu. A pressa mesmo não parece ter sido a causa da barba imponente que se lhe cobre o rosto e que dá esse ar de autoridade. – essa é também uma grande injustiça. A gente se depara com tantos meninos velhos, com tantos barbudos infantis! de modo que a barba parece muito mais um disfarce, ou seja sintoma confuso de uma maturidade que ainda não chegou, e nem parece que virá. Uma goiaba amarela e dura, mas de barba.
É muito conveniente ter vontades infantis e uma barba que as disfarce. É muito vantajoso parecer jovem e parecer adulto ao mesmo tempo. Na pressa de crescer, a gente bebe cerveja, come sem lavar as mãos, parte uns corações alheios... e ter uma barba, me parece, é poder fazer tudo isso sem o peso de estar fazendo só porque se é jovem. Ter uma barba é ter do mundo a assinatura no fim do contrato, a chave-mestra, o aval. Meu rosto sem barba é de um bebezinho que tem muito o que viver. O rosto do meu amigo, ornado de poder, é o rosto de um cavalão que já não fede mais a mijo.
Na pressa de crescer, já vejo esse meu amigo mais inchado, de beber cerveja. Vejo-o sendo um menino brincando de ser homem. Pra mim, que vejo muito mais do que sua barba, eu sei que ele ainda tem muito o que viver. Mas, realmente, de barba, ele parece um tanto mais adulto assim do que quando mantinha seu poder de ser jovem.