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Calopsita desaparecida

Foi por ali na Duque de Caxias, eu na garupa da moto, deixei cair do bolso uma caneta que tinha ganhado com meu nome e tudo. Eu vi na hora que aconteceu e então olhei pra trás, mas não tive coragem de importunar o motorista pra que eu pudesse descer e pegar minha caneta. Por uma caneta?! julguei que fosse coisa pouca demais. Eu não correria o risco de ser atropelado ou chatear ninguém. 

Quando olhei pra frente de novo, paramos no sinal, e eu achei um cartaz num poste, que achou minha atenção pra si. 

CALOPSITA DESAPARECIDA. Atende pelo nome de Pierre. Ofereço recompensa. Fone: (85)...

Que chato... Nunca lido bem com anúncios de desaparecimentos. Pierre, na foto, era tão simpático que parecia sorrir. O tom objetivo do cartaz já não era tão feliz, e nem poderia ser. Há grande tristeza nesses sumiços, porque são das situações que criam na gente aquela única coisa que nossa existência é realmente incapaz de tolerar: a dúvida. 

Da garupa da moto, antes de abrir o sinal, tempo suficiente pra refazer o mundo, eu me enlutei por um instante. Pensei na cidade inteira... se eu me perdesse em Fortaleza, ai de mim! mas eu me viro. Perder um cachorro, perder um gatinho: essas infelicidades são um pouco piores. Mas perder uma calopsita, que é ainda mais simpática do que eu, do que um gato, que é ainda menor em tamanho comparada com a cidade, que ainda por cima tem asas e voa… Perder uma calopsita na Avenida Duque de Caxias…?! 

Que tragédia. Digo, porque era muito provável que a perda terminasse aí. Que Pierre nunca mais sorriria pra foto. Que do que lhe aconteceu, só se soubesse a dúvida. 

Mas à parte da tristeza que é a perda, o cartaz com o anúncio de uma calopsita perdida no lugar mais caótico de Fortaleza era, na verdade, uma esperança bonita. Tinha alguém, de uma tristeza de poucas palavras, que preferiu crer na sorte em vez de crer na tragédia.

E então, sinal vermelho, senti vontade de telefonar mais tarde e perguntar se alguém achou o bicho. Eu precisava saber se já o cartaz era uma memória de que acreditar valia a pena. Eu precisava saber se ainda deveria andar na Duque atento ao chiado de uma calopsita. Eu precisava saber se era possível, nesse mundo em que tudo é impossível, que uma calopsita chamada Pierre fosse encontrada e, ainda por cima, devolvida. Eu precisava - de precisar, de necessidade. 

Eu, na verdade confesso, queria só perguntar se já acharam ou não, e ia seguir minha vida independentemente do tipo da resposta, e a minha inquietação era uma bobagem fugaz.

Pois foi que, juro: ainda no sinal vermelho, recusei minha própria curiosidade. É que me imaginei anunciando um bichinho perdido, oferecendo até recompensa na ânsia de o ter comigo de volta e esperando no telefone uma notícia que me matasse de mim a saudade. E então senti uma barroada no dedo mindinho, essa raiva que dá sem muita razão, pensando em como ficaria irado por receber uma ligação de um curioso dizendo nenhuma das palavras que eu queria ouvir. Uma curiosidade que pra mim seria inútil e desrespeitosa. Uma dúvida sem objetivo, que deveria ser menor do que a minha dúvida de tragédia.

Abriu o sinal. E resolvi sofrer sozinho a mesma dúvida. Se acharem Pierre tomara que achem também o cartaz. E se acharem minha caneta, que não façam questão de me devolver. Caneta é um bicho que não tem dono, que não voa e que eu não espero ter de volta. Me divirto um pouco pensando que em um universo paralelo eu panfletei a Duque de Caxias atrás de achar minha caneta de novo e, num outro, alguém me ligou só pra saber se eu já a achei. Eu, tenho certeza, devo ter ficado irado, e depois triste. E tomara que ninguém tenha sido atropelado por isso.