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Dentro de mim há esse mar


Eu corri solto sem que ninguém me notasse. Eu andei sob o sol das dez, das doze, das duas, encantado pelo feitiço das marés e com os pés descalços sobre o engranulado das conchas e dos cascalhos... Emperfumado a maresia pura, cheirando sol e suor, eu fui uma sombra arqueada na areia da praia, que não aceitou viver no raso. De dentro de mim, olhos d'água fluíam eu. E então desde que me fiz menino, não soube senão enxergar.

De dentro de mim, como água, sempre houve essa grande maré de Lua cheia, uma fonte inesgotada de querer ser. Eu falo sem charadas ou viravoltas, mirabolismos… eu falo somente com as poesias, que fazem da vida mais vivível, e tornam a dor menos tirana, porque, no fim das contas, só as tenho nelas mesmas. Assim de quando me lembro ser menino, as palavras pousaram em mim como o tempo nas coisas que são finitas. Como o barco, gentilmente deslizando sobre o rosto da água. Foram as palavras que me trouxeram até aqui. Muito mais daquelas que escrevi do que as que disse, do que as que li. E muito mais as que me faltaram na boca ou na tinta. Elas têm sempre estado por aí, correndo o mundo, inventando coisas, perturbando a paz de meninos não menos inquietos que elas próprias. Aquele garotinho da praia, com as mãos molhadas de si, descobriu outra força inundando a própria margem. 

Eu mergulhei, peixe-palhaço, cavalo-marinho, sereia, siri, astronauta... engolia aos soluços o mar que minava rasgando minha boca seca. Eu tive sede, porque fui poeta. Mas eu ainda não era ninguém.

Estou lá, naquela foto: um dia azul de praia, canto esquerdo: meu braço cortado pelo enquadramento que não me cabia, porque não estava nem mesmo preocupado em me ter. Metade do meu rosto sorri, a outra metade o mundo não conheceu, porque eu apareci como um feitio do acaso ou por minha natureza insurgente, brincando de ser poeta até mesmo entre as bordas de uma foto que não era minha. Se me olhar com calma, basta que me veja por um instante, não será difícil me ter, que estive sempre naturalmente à disposição do mundo. O mundo é que em tudo me rejeitava. 

Olhos atentos: fisguei as nuances, os tons, os volumes molhados dos calções de dentro da água. As curvas que as ondas quebrando no batente de areia desenhavam como uma obra-prima de um poeta. Como as letras ao meu redor... De tal forma que se deve constatar: ou é o mundo que é naturalmente artista, ou somos nós incessantemente em arte.

Já então incapaz de cerrar barragem, deixei fluir e escolhi naufragar. Foi com a água que aprendi a ser livre. As letras, só depois, me ensinaram a ser, apenas. Apesar de meus dedos gritarem meus rios, eu não era substantivo algum pro mundo. Alguns verbos depois, nasci sem vida, mas livre, até que um dia, não sei bem como, virei palavra na tua boca. Ganhei sentido, e então, agora sim: existo.

Eu estou aqui, mas ainda não cheguei. 

E eu vim em várias cores, de vários tamanhos, de todos os formatos, num engranulado diverso. Eu vim como o mar, num esculpir de ser eterno, mas do lugar de onde vim, não se come essa arte. E o que é que se faz quando mas? Por aí, aos bandos, os morimbundos se amontoam, mortos de fome de arte. Eu não morro junto, porque tão somente sendo eu, me tenho num estoque atlântico de mim mesmo que frente às tempestades não me deixou evaporar. O meu combustível não poderia ser outro que não a água. É porque está em mim como algo inerentemente eu, como um destino inevitável. 

Não fosse por isso, morreria também, afogado. Não que eu dependa de mais para ser, pois como disse, sou e isso basta. Mas apesar de fluir, eu também seco.  Mas apesar de secar, eu não esgoto. E meu desejo é ver a arte desaguar furando muitos outros peitos famintos. E ordeno que aqui seremos água calma… e que ninguém sairá enxuto. Ordeno que brote sem obstáculos, como um olho d'agua por entre as pedras da praia, tudo aquilo que nos faz ter sentido, e poderemos enfim existir pra vida. Sem temer que as águas turvas, verdes, calmas nos afoguem em nós. Naufragaremos poesia e inundaremos de seres o mundo.

Foto: Withamy dos Santos