![]() |
| foto: Withamy dos Santos |
Eu despenquei. Sem nem me importar com quem estava passando embaixo, eu me desprendi e me lancei, porque fiz isso por mim. Sem nem considerar que, na queda, eu poderia me acabar no que sou e me espatifar no chão, virando um grandissíssimo nada. Que é que faz uma manga senão crescer e cair? Porque a maldição da manga é ser grande de si num alto que não a sustenta. E já que uma hora outra, naturalmente, precisará despencar, quem estiver embaixo é que se prepare.
Eu abracei o impulso de movimento que é a vida e aceitei a possibilidade de morrer em meu estado atual, de matar-me nas minhas certezas e de acolher meu novo eu. Eu fui puxado pela terra, de onde um dia cresci dum capricho idêntico ao que está contido dentro de mim. Eu não decidi cair, simplesmente aconteceu. Poderia se dizer que é porque chegou a hora, pois passados os meses de vento, eu ainda permaneci aqui. Os ventos derrubaram muitos outros, impiedosos, mas eu fiquei. Porque quando já estava em cor, não foi preciso mais nada, a não ser meu próprio peso, lotado de tédio pela vida monótona dos galhos... então eu despenquei.
Eu caí, eu fui cortado. Eu despenquei, eu fui cativo. Eu maturei, eu desabei, eu despendi, eu ruí, e então me estatelei no chão duro.
O menino ignorou todas as minhas questões de manga e, enfiando o dedo por entre a casca amarelada, me fez outra coisa. Num impulso voraz de instinto, devorou tudo o que não lhe escapuliu da boca. Não me sobrou só o caroço. E eu sou o quê? Agora eu sou qualquer outra coisa.
