beatriz, a chuva é pra todos: pros que correm evitando as gotas, pros que aceitam ensopar-se, pros que andam despreocupados como se chuva fosse só água
as nuvens, amontoadas, pairam sobre as cabeças de todos: mesmo os que têm teto.
teus olhos banhados pelos flashes dos relâmpagos, fotografias que a chuva tira enquanto bole com os cachos derramados nos teus ombros, não se aguentam, precipitam também. essa tua chuva desaguando incontrolável não vai passar sem que antes te inunde.
então deixe que molhe, deixe que inunde… deixe que os trovões medrosos te embalem tua ira. pra quem não teme o mundo, chuva é só água, e molhar qualquer coisa pode ser o mesmo que regar. deixe que a chuva te irrigue, em broto, e depois se vá por entre a terra alagada.
beatriz, veja o temporal se amansando tímido, e um sereno acertando teus pés no batente. de repente, o aguaceiro já não te derrete, e não se vê mais turbulência no teu choro, que é uma garoa. os trovões se emudecerão. a chuva cessa e, num alívio, faremos das poças espelhos de nós. e logo na esquina, escutaremos o canto azul do pardal, abrindo um céu ameno e limpo.
