Pular para o conteúdo principal

Dinho

Todo ser guarda textos em si mesmo que nunca vêm à tona. Quantas palavras em nós permanecem indizíveis, escondidas na sombra das vergonhas sob a luz?

Na verdade, é que em mim tudo vira arte, então todas as palavras, mesmo as mais breves do dia-a-dia, são germes de uma semente que só brota, nunca definha. Algumas palavras, sim, precisam permanecer mortas sob a sombra da vergonha. Mas como é injusto que a própria vergonha se erga na luz, e as nossas paixões mais honestas fiquem sempre acanhadas, sempre abissais!

Aqui não se diz do que é segredo ou imoral, mas daquilo que, de verdade, deveria ser dito pro mundo. Daquilo que nos faz vivo e humano. Das paixões que nos fazem verdadeiramente ridículos. As paixões nos fazem ridículos tanto quanto nos mantêm vivos: dentro de nós, os corações são peças insistentemente em busca de ser, e as palavras são as próprias engrenagens do eu. Bile, Fígado, Pâncreas, Rim, Saudade. Amor.

Ele era grande, braços largos, o queixo adornado de uma barba vívida, atlântica. Os lábios, de uma cor incomum, um tom de rosa, coral, brincavam com dentes, chiavam os ésses, os gês, os xizes... Os olhos, que nunca se ausentam da descrição do poeta, miúdos, enxergavam poucos palmos à frente, e por dias só viram embaçados os sorrisos e as fisgadas. Quando o óculos chegou, uma surpresa: "não imaginava que você era assim tão bonito!". O tamanho parrudo não assustava no engrossar da voz, porque era assim, todo grande, mas sensível. Grandinho. O nome...não importa. Às vezes as coisas não se dão bem com os nomes que têm, e então o nome já nem fala muito sobre quem são.

Ele era grande, braços largos, barba atlântica. Lábios rosa-coral chiando os ésses. Olhos. Voz. Corpo.

Numa acendalha cafona, verdadeiramente ridícula, me desfiz do seu nome, que já não me dizia nada, e guardei em mim, envergonhado, o novo nome que lhe dei: Dinho. E Dinho nunca se ergueu na luz, e a minha paixão acanhada não conheceu a intimidade suficiente pra que eu explicasse a ele que seu jeito grande, parrudo, era fofo, muito lindo, e que por isso não o chamaria de grandão, de amorzão, mas de benzinho, de amorzinho, de grandinho.

Dentro de mim, essas palavras emudeceram até o dia que eu tive suficiente coragem de deixar que germinassem nas pontas dos meus dedos num alvoroço. E acho engraçado, no mínimo, como só quando escrevi é que tive paz com essa ridicularidade. Eu, calado do começo ao fim do texto, suspirei de alívio quando pontuei a última frase. Ainda as palavras guardam coisas que só elas é que podem dizer.