Pode ser que eu esteja tão desesperançosamente focado demais nos fins que esteja esquecendo dos detalhes mais simples que compõe cada paisagem dos arredores.
Ultimamente sinto que ando desfocado, com uma vista turva e descolorida do entorno. Me parece que eu deveria prestar mais atenção nas paredes, nos retratos, nos sorrisos e hálitos... Me parece que tenho feito mal uso da desgraça que é ser imagem e semelhança de um deus que tudo sente, e eu sinto muito.
Corro apressado em pagar o amanhã, e me abstenho dos entreolhados, dos murmúrios e dos perfumes. Ponho cada vez mais importância nos extrassentidos: aquilo que não se vê com os olhos, nem se sente com as peles, nem se cheira os nazires, mas se percebe apenas nas entrelinhas dos dias. Tenho, até mesmo, parado de escrever.
Tenho deixado de lado. Nesse esforço de desabar o que venho fazendo de errado, me acho um conselho, pra mim e para os que, como eu, têm se deixado esquecer nos vais-e-vens de mão única da vida...
Que eu me banhe mais em águas molhadas, e sem cor, e sem cheiro, ou em águas verdes, e mornas, e frias... Que eu me envolva em fumaça, no odor da gasolina, na brisa do asfalto e no bafo que sopra dos altos prédios e altas árvores e médias e tristes pessoas transitando nas calhes. Que eu sinta mais pelos lábios, olhe mais pelos cheiros, deguste mais os sons e veja com novos tatos cada pedaço dos pedaços do mundo.
Ando sentindo demais. Não poderei nunca fugir da maldição que é ser a única pessoa no mundo capaz de desvendar os mistérios de mim mesmo. Entretanto, é indiscutivelmente preciso que eu me aposse, de vez em quando, da benção que é poder ser, desesperadamente, raso.
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| foto: Samuel Victor Barbosa |
