O Amor me enganou. De novo.
Achei que o Amor tivesse um rosto, mas ainda não foi dessa vez que se revelou a mim com sua face. Sua letra, no entanto, mesmo que toda rabiscada, eu a reconheci nas dobradiças rotas do papel.
Ah! pregaram-me uma peça.
Achei que o amor carregasse minha mochila, agarrasse meu braço, me puxasse pra perto segurando-me como o mais precioso tesouro! mas não.
Achei que o amor me acariciasse com apelidos, bitocas, cafunés, devoções, encantos… mas não.
Achei que o amor beijasse meu lábio doente, e eu diria: – Amor! Seu bobo! você vai adoecer também! E ele desse de ombros e beijaria-me voraz e destemidamente, que não liga, que não teme, que muito mais vale o doce do meu lábio, mas não.
Achei que o amor viesse leve e volátil. Que fosse maleável, macio. Que insistentemente bateria à minha porta, pacientemente esperando o momento em que eu pudesse abrir, convidar a entrar, sentar no batente, tomar iogurte, comer sanduíche… mas não.
Novamente me enganei com a face frívola do amor, que tem mil e uma dessas faces, todas elas igualmente indomáveis e esguias e – aparentemente – intangíveis.
Tantas infinitas são as incógnitas que precisam convergerem-se pra que o amor se satisfaça e finalmente resolva ser… Tantas são as circunstâncias a considerar nos assuntos do amor e melhorar nos assuntos da dor…
Não ser bonito;
Não ser bonito suficiente pra alguém;
Não perder os sinais,
Não pensar demais;
Não deixar o passado emergir e arruinar o que pode haver no futuro;
Não deixar a pressa do futuro arruinar o que pode ser o presente;
Deixar ir…
Correr atrás…
Não ser o alguém de alguém.
O amor chegou por acaso, fingindo mistério. Me teve nos braços, me passou a perna. Segurou minha mão e correu na direção oposta. E eu queria do Amor um olhar-me-no-espelho, mas vejo que, por outra vez, fazer o quê? não foi dessa vez.
Fui me sentindo nisso de uma inocência incrédula, e decidi jogar tudo pra cima, sem remorso do signatário. Nunca mais olho a correspondência de ninguém.
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| foto: eziotake |
