aí fora existe um mundo que não é meu
em certas partes impossível de acreditar que existe
em todas as partes vasto, magnífico, extraordinário.
comigo, também encontro avessos, desconfortos, perdições imperfeitas, mas sorrio.
sorrio, que tenho meu amor!
que as cores cinza,
preto,
sépia,
colorem também as mais fascinantes das paisagens.
com meu amor ao lado, as costas ainda doem.
o nariz escorre, o cabelo ainda coça de suor e sebo.
sorrio, porque vivo de verdade!
mesmo com meu amor ao lado,
ainda me espeto nos carrapichos,
ainda as muriçocas drenam minhas panturilhas,
e a tarde se faz noite, e a noite se faz triste,
e ainda assim, sorrio.
ainda estão lá as inquietações ao redor
e sorrio pro meu amor,
e as aceito, por conseguinte
caminho com meu amor ao meu lado, e sorrio
pois nada é como num filme…:
o próprio brilho endiamantado das pinceladas das ondas ofusca e dói os olhos.
o mais belo dos mirantes traz consigo a fadiga da tarde
nem a fome cessa em me lembrar da minha pobre e frágil humanidade.
meu amor não impede nada
a maré sobe e leva embora o trabalho de um dia,
os raios partem troncos e ateiam fogo nas matas,
os homens se decepcionam uns com os outros.
meu amor compreende tudo.
e por um súbito instante,
naquele suspiro de alívio,
silêncio, sopro ameno do horizonte,
percebo pelas marcas, inchaços, cicatrizes,
que as belezas mais lindas do amor
serão sempre aquelas que, se existem,
são, essencialmente, reais
para Heitor Sherman
