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felizes

Eu ainda não entreguei os planejamentos do trimestre de setembro-novembro. Confesso que em matéria de planejar, sempre serei o último da turma. Quem sabe se eu tivesse tido um professor ou uma disciplina pra "Planejamento" eu seria bem menos desastroso.

Ainda alguns meses atrás, no quarto da minha mãe, havia uma cômoda cuja madeira estava toda riscada. Toda marcada de uma aulinha que eu inventei que dava quando tinha, sei lá, oito anos. 

"Atividade de Português. 

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Questão 1...". 

Mamãe inventou de pintar a cômoda severos anos depois, não sem antes me mandar uma foto da arte que fiz de marcador permanente na parte direita da madeira. 

O que é que eu queria ser quando crescesse...? Tia Cyda diz que eu lia tudo aos três anos. Lia que enchia o saco! Junto da foto, mamãe disse que não tinha jeito. "Um dos primeiros sinais de que sabia o que queria". 



Eu queria ensinar o português, a gramática. Queria ensinar o inglês, o verbo to be e mais do que isso. Queria ensinar que ser quem você é é a coisa mais certa a deixar ser. Queria falar e ser ouvido, fazer minha voz ecoar e ressoar em caixas torácicas. Mas eu nunca quis planejar, e tenho até hoje uma grande aversão a fazer planos, quaisquer que sejam. Sabiam vocês que "quaisquer" é a única palavra do português cujo plural não termina em s? (talvez não seja, então prefiro dizer que seja talvez). 

Corrigir provas, não digo mais que nunca quis fazê-lo. Me lembro sim de brincar de professorzinho, explicar o conteúdo e passar a atividade, dar bronca nos deveres atrasados e corrigir as provas que eu não levava mais que meia hora pra elaborar. Como muitos outros, eu espero, esses sonhos de criança se tornariam, não muito tarde, verdadeiros. Já não me leva apenas meia hora pra elaborar uma prova, mas um pouco mais. Um pouco mais de tempo que eu deveria estar fazendo qualquer outra coisa, menos elaborando prova. Um tempo que eu deveria estar planejando os documentos atrasados, botando as notas no sistema, fazendo os comentários pros pais, pensando nos próximos trabalhos que vão me permitir trabalhar e trazer mais trabalho pra casa. 

Ninguém me disse que isso era ser professor, mas bem me avisaram que eu deveria brincar de ser outra coisa.

No chão da sala de aula, eu invento que sei o que estou fazendo. Às vezes, eu só quero que alguém responda com o mínimo de entusiasmo alguma coisa que eu perguntar. Às vezes, me basta ouvir um monossílabo de um aluno quieto, tímido, quase mudo no fundo da sala. Às vezes, ouvir um "tio, eu entendi" é janta. E eu durmo oito horas por noite de barriga cheia. 

Nem sempre sou sucesso em ser professor. Ainda me decepciono muito comigo mesmo e com as sabotagens e autossabotagens às quais estou sujeito. Veja que ainda não entreguei os planejamentos do trimestre setembro-outubro, e me encontro na iminência da demissão ao escrever uma crônica em vez de cuidar nos documentos da burocracia. Mas mesmo sob a pressão da cobrança e da autocobrança, pra mim, era impossível deixar de escrever por mais tempo, como tenho deixado.

Nunca vou me permitir esquecer que sou humano, acho que esse é meu superpoder. Acho que esse é meu motivo maior dentro de sala. Sempre espero que os alunos se espelhem em mim. Que se vejam refletidos em mim, pra que também não se esqueçam que são humanos também. Dentro de sala de aula, não sou um professor que tem uma vida, que é uma pessoa. Eu sou uma pessoa que também é professor. E tento ver em cada um as pessoas que são e que estão tentando ser. Tenho tido pouco tempo pra isso, perdido na bagunça dos prazos, das horas/aula de 50 minutos, da voz falhando em pedir silêncio e mais silêncio e mais e mais... isso muito me tem frustrado.

Mas sou muito feliz quando acontece de ser lembrado pelos próprios alunos que somos gente (às vezes, nem tanta gente, Clarice). E então me deparo com os sonhos deles e na expectativa de querer que eles os alcancem. E como é precioso ver seus corpos esticando, suas mentes em erupcioso amadurecimento! Como é bom vê-los apenas sendo... Como sou feliz em saber que o Ruan está vivo. Que o Felipe quer aprender Inglês. Que a Camila não deixa de ser tão inteligente mesmo sendo tão moleca... Como sou feliz pela existência do Yago e pelo apelido que deram pro Vinícius Pocoyo. Como sou feliz pelos casais que se formam na escola, pelos beijinhos escondidos, pelas atividades em dupla. 

No chão da sala de aula eu jamais vou me deixar esquecer que somos, no fim das contas, pessoas lidando com pessoas. Humanos com outros humanos… 

Os planejamentos vão ter que esperar um pouco mais. Agora estou sendo feliz por lembrar de meus alunos sendo felizes também.