Rebato com certa agressividade o argumento de que hoje em dia todo mundo é ansioso, ou tem ansiedade. Pois tem como não ser? As novas tecnologias não têm nos proporcionado mais tempo de descanso ou menos tempo de trabalho. Elas têm sido ferramentas pra agilizar o trabalho e fazer sobrar tempo pra trabalhar mais. Tem como não ser ansioso com tantos prazos, deadlines, com tanto tique-taque, áudios acelerados, comida pronta... De certa forma, até concordo.
Todo mundo tem estado ansioso. Todo mundo tem cozinhado o almoço pensando na janta e no almoço de amanhã. Ou nem cozinhado nada, pensando nas demandas do trabalho. Só pensando...
As maiores dúvidas da humanidade, nos dias de hoje, são: quem somos?, para onde vamos? e onde estamos com a cabeça?. Onde estava eu com a cabeça, quando decidi fazer feijão, lembrei que não tinha folha de louro, desci no mercadinho da esquina, comprei batata, cheiro-verde (deus estava de muito bom humor quando inventou o cheiro-verde), comprei cebola, cenoura, pimentinha de cheiro, comprei até banana pensando nas vitaminas da semana, nos pré-treinos antes da academia e voltei pra casa sem a folha de louro?
Na frente do condominiozinho, tem uma bodega. Costumo comprar garrafões de água lá, que eu sei que vendem. Pra outras coisas, me dirijo logo ao mercadinho da esquina, que é mais certo de encontrar o que eu quero comprar, e evito de perder tempo e de enfrentar a decepção de não achar na bodega. Entretanto, como em toda bodega, há uma chance em mil de conseguir encontrar aquilo que você procura. Não seriam as bodegas o melhor retrato da filosofia? Ainda com as sacolas em punho, decidi arriscar e perguntar se tinham folha de louro.
Na grade, a dona estava abrindo o portão pra uma outra senhorinha, cabelos brancos esvoaçantes querendo virar nuvem. Interrompi a conversa, a dona entrou e procurou sem sucesso. Tem não.
A senhorinha de cabelos de nuvem olhou por um pedaço, um tanto impressionada. Me revistou do chinelo aos cachos secos da cabeça (ainda não tive tempo de lavar o cabelo e hidratar como merece). Parece que não esperava ouvir um sujeito tão novo perguntar sobre folha de louro. Rebateu com o olhar na minha sacola com cheiro-verde em fuga (deus seja louvado pelo cheiro-verde!), e enfim deixou a curiosidade irromper: "Folha de louro? Quem vai cozinhar, é você?!"
Pois na hora estufei o peito, endireitei a coluna, botei sorriso de um lado pro outro. Quase cantei. "Sim. Vou cozinhar feijão". Brasileiro, escritor, professor, e ainda sei cozinhar feijão.
E num refrão, ainda mais surpresa, ela louvou depois de mim. "Vai cozinhar feijão?!". Dei de costas pro portão, me despedi das senhoras. É preciso aceitar a realidade das bodegas, e é preciso sofrer as consequências do meu atarefamento.
Bem pensei, depois, que a própria senhora pudesse também ter me julgado por querer cozinhar feijão e esquecer justo de um dos principais ingredientes... Às 9h da manhã de um domingo, serenando em despreocupação, da bodega, me olhava subir as escadas do condomínio e pensava com a outra: onde é que ele está com a cabeça...?
| foto: withamy dos santos |