Fortaleza, 20 de Outubro de 2024
te gosto de surpresa, que tu apareceu assime te gosto na tua voz, que é rouca
e pelo teu olhar meigo e amansado
te gosto nos teus cabelos negros irrebeldes
e no desenho curioso das tuas sobrancelhas
e pelo gesto que fazes franzindo a testa, mostrando os dentes,
cantando como se eu fosse plateia cheia.
te gosto na piçarra das tuas costas,
nas tuas orelhas, na tua barba
te gosto no rastro que deixas quando deixas minha casa
nos teus pandeiros, tuas cuícas,
tuas vontades de rei, tuas coroas de louro
teu passo elegante nos meus poucos metros quadrados, nisso tudo te gosto
te gosto no teu perfume de fora, brisa importada
sopro de alma tropical
essa que tu tens, e em que te gosto tanto!
e no teu perfume de dentro, quando me sopras bem no rosto
ditando meu nome, me nomeando pro mundo
esse que te tens, e em que te gosto tanto!
e te gosto até mesmo no teu medo bobo.
na tua boca nunca aberta nunca fechada.
te gosto quando ela é só,
a tez, o brilho, a suficiência
e te gosto quando ela é comigo,
o suspiro, o beijo, o lábio,
que só existem em complemento
com outro suspiro, outro beijo, outro lábio
nas tuas mãos grossas sobre as minhas
te gosto tolo
nas palavras que te rodeiam
te gosto morno
que palavras, meu caro, são a forma mais cruel do efeito do tempo
e então te gosto irrepreensívelmente
com um desses gostares arriscados
que ou se acolhe, ou se rejeita
te gosto no agora, que é eterno instante
e na saudade, que é ainda mais eterna
e te gosto tanto, profundamente te gosto
que ainda mesmo que se vás pra sempre,
que eu sei que irás,
por mais tempo ainda vou te gostar um bocado assim.
te gosto no teu sobrenome
na tua juventude apressada
te gosto na tua sintonia, no teu chiado
na loucura que é o teu avesso
na confusão que é o amanhã e o depois de amanhã
e gosto de minerar teu sentimento bruto e incalculável
e descobrir-te que é uma joia covarde, mas sensível
porque ter força não significa ter coragem
e cada um tem seu tempo, eu sei
e eu sou capaz de gostar todo tempo, o meu e o teu também
não te vás, só porque te gosto e é muito...
que te gosto no pouco e no tanto!
porque tua alma se destaca em como tudo orna, por isso te gosto.
e porque tudo parece estar em paz, e ter em ti seu devido lugar, por isso te gosto, também.
e então chega a hora de dizer que eu não te gostaria tanto assim:
só te gosto, fique ciente, porque tu voltaste uma segunda vez
e então agora, te gosto de graça,
mesmo que sozinho, ou acompanhado somente da saudade, que é fim de quem gosta
que te gosto, tu já sabes
e minhas confusões desimportantes não são mais novidade na tua aventura
e minhas palavras, poemas, já voaram do varal com o vento de setembro
esses ventos desgraçados que sopraram pra longe minhas cartas do teu cordão
te gosto tanto que até penso
no desastre que seria não te dizer que te gosto
porque somos muito mais gostados do que sabemos, eu te disse
e isso é das piores maldades que padecemos nós, pobres almas
o mundo não precisa saber que te gosto
mas tu precisa ouvir de mim, porque eu preciso te dizer e, pior, preciso que tu ouça.
o mundo não terá senão as minhas palavras vazias em si,
porque depois de mim, só tu, e apenas tu, as pode preencher de significado com todas as vezes que me ensinaste a te gostar tanto
e sem limite
e, finalmente, te revelo que essas últimas palavras não são nem de perto um poema de gostar
porque, se não percebestes, és mesmo um tolo
e aí já está o limite daquela eternidade que persigo te escrevendo
e que já há muito cruzei impiedoso a linha de chegada:
eu não te gosto - que isso é pouco
eu não te gosto, entende-me bem.
eu não te gosto,
eu te amo.
