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Aleshom!

Saí pra ir ao teatro. Duas vezes! Na verdade, deixe dizer que não foi bem assim... Saí pra trabalhar, voltei e passei no Restaurante Universitário e lembrei que só a alguns metros mais na frente, o Teatro da UFC estaria recebendo a apresentação de uma peça. 

A peça começava às 19h, e eu já estava uns 40 minutos atrasado, mas fui. E aí preciso dizer que não sou muito bem ambientado ao teatro... Talvez o cansaço de ter trabalhado por doze horas seguidas já tivesse me deixado meio amargo, ou talvez o fato de ter assistido a poucas peças na vida é que tenha me feito torcer os beiços pro roteiro de I.N.R.I nos minutos primeiros que acompanhei a história. O fato é que, com o avançar das cenas, eu não conseguia parar de notar mais e mais detalhes cativantemente interessantes do trabalho que o Coletivo Semmedo executou com tanto talento. 

Não é sobre mim que este texto fala, mas tendo voltado uma segunda vez para reassistir, agora do começo, "I.N.R.I. (Fecundación, 5:10)", eu precisava que ele falasse por mim.


O que eu assisti

A farofa teatral do Coletivo Semmedo é dirigida por Abeju Ara, Anthony Wof e Alessandra Flor Ferraz, que também assina a dramaturgia. O elenco conta com a própria direção e cerca de quinze outros excelentes atores, que encenam no meio do público-plateia (por vezes, também personagem). 

I.N.R.I é a parte dois de uma trilogia que, segundo Alessandra Flor, nasceu em 2017, naquele que, penso eu, é o lugar de onde vêm as melhores ideias: de dentro de um ônibus. 

O cenário político de uma nação é um lugar de disputa, onde as ideias nascem e podem (ou não) encontrar propagação. Numa democracia, essas ideias encontram contraste, oposições, de uma maneira que possam ser reguladas ou contidas (ou endossadas) em seus princípios. O roteiro do espetáculo foi desenvolvido a partir de 14 sinopses, e imagina um futuro distópico onde o fundamentalismo religioso superou a resistência do Estado Laico, e se instaurou numa espécie de dinastia teocrática.

Essa dinastia, liderada por Emir, produziu uma seita revolucionária: Heréktia, cujo objetivo é destituir o presidente, o "predestinado" por um Ser Supremo, ao qual as pessoas reverenciam todas as vezes que é mencionado. 

O desenrolar da história, bem como os figurinos e demais caracterizações, me lembrou rapidamente as premissas de 3%, série brasileira produzida pela Netflix em 2016. Entretanto, enquanto o Maralto, de 3%, é um retrato escancarado da desigualdade social e da luta de classes, a Cã de I.N.R.I é o escárnio de um projeto teocrático de poder. Dessa forma, os dois roteiros se apartam em seus próprios rumos. 

Mas tendo sido instigado a sair de casa e ir assistir o espetáculo uma segunda vez, eu percebi que a dramaturgia de I.N.R.I. não precisa se esforçar para ser um grande ato do teatro. Isso porque a própria trama é suficientemente cativante e pode se dar ao luxo de se apoiar na maestria dos seus atores em dar vida a arcos dignos de uma série inteira num streaming. 


Seis de Paus

Apesar de achar que a primeira apresentação tenha sido melhor num geral, foi da segunda vez que assisti que consegui aprofundar minhas percepções acerca do trabalho primoroso feito pelos atores da UFC. Aqui eu acho que posso reafirmar uma das minhas mais plenas convicções: Fortaleza é a nova capital da arte do Brasil. 


I.N.R.I (Fecundación 5:10) é dividida em arcos muito bem amarrados e fluidos. É o carisma de Klysman Nogueira, com todas as suas gaiatices, improvisos, caretas e posturas, que sustenta o ar leve e caricato de grande parte da peça. Em todos os minutos que aparece, ele é muito capaz em construir e manter a ponte que faz o público também se sentir ator no mesmo palco. Seu José Messias se esforçou bastante pra se tornar um personagem odiável, mas conseguiu o amor do público em todas as três noites de apresentação.

A Bovú de Alessandra Flor Ferraz é a personagem mais encantadora de todas. Alessandra é um orixá encarnado: sua performance é extremamente eficaz em transmitir a afetuosidade com que Bovú se desenvolve. 

O portunhol que Alessandra deu pra Bovú, embora falhe quando é preciso que o tom se mantenha dentro do melancólico, é muito bem aproveitado nos respiros de alívio que a peça tem e na personalidade da própria Bovú, rapidamente se tornando uma marca adorável das cenas. Ainda, o delicioso sotaque da própria Alessandra, escapulido algumas vezes, não diminui em nada a qualidade da personagem. Tenta atuar em espanhol pra saber se é fácil! 


Talvez a afetuosidade da Bovú não lhe permita em momento algum duvidar da sua honestidade e bom coração. Se existe mesmo um ser supremo, e se ele é bom, ele foi quem abençoou Heréktia com Bovú.


Os olhos do Felipe Pinheiro chegam primeiro. Falam junto (mas muito mais do que) do seu detestável personagem. Espírito Santo é a inspiração dos planos para a sabotagem do líder de Cã e, embora sua arquitetagem talvez tenha funcionado, seu trágico fim não é sentido com pesar pelo público (e nem deveria!). A performance de Felipe cumpriu com tudo o que se propôs e ainda fez mais: quem não se sentiu atravessado pelo ódio dos seus olhos, ficou em casa. 


Natália Wirtzbiki é simplesmente genial em todos os exageros de Irmã Rebeca: a modéstia supérflua é brilhantemente desmascarada por seu excessos ...de controle, ...de culpa autoinfligida, ...de devaneios. Todo mundo conhece uma Irmã Rebeca. Ninguém nunca sabe bem como lidar com elas. A presença de palco de Natália cumpre o papel de transmitir essa sensação de descontrole emocional. Uma loucura de se assistir!

É necessário destacar também a sensibilidade do papel de Thaís Gonçalves, cuja atuação é dosadamente emocionante. O perfil de Thaís pode casar muito bem com a comédia, que ela já desenvolve sendo palhaça, mas a sua comovente Eva é a prova irrefutável da versatilidade dela. Thaís tem uma voz doce e rouca, que poderia ser muito bem explorada pela dublagem, mas que já entregou uma personagem corajosa e muito identificável, sem cair na lástima da melodramaticidade exagerada. 

O ponto alto de Fecundación fica com o trecho onde Eva e Kafka contracenam sobre as atitudes, comportamentos e expectativas sociais de homens e mulheres, num texto profundamente poético, que sintetiza brilhantemente a ironia dos papéis de gênero.



A história de I.N.R.I esteve nas mãos (e corpos) de ótimos profissionais, num conjunto equilibrado e harmônico e agradável de acompanhar. A sensação que dá é que os atores são também amigos se divertindo no prazer de atuar, que eu imagino que seja a premissa de um coletivo, talvez. Destacadas as performances, na minha humilde opinião, mais marcantes, também reverencio o trabalho dos outros vários atores da peça, igualmente felizes nos melhores aspectos de cada um de seus personagens. 


Gran-finale

A concepção de figurino de Abeju Ara, em seu zeloso trabalho de caracterizar, vai muito além do que os atores fazem ao vivo. Se estende ao pensar os adereços, os instrumentos de cena, às estratégias narrativas menos explícitas. Aqui saúdo a idealização das vestimentas e detalhezinhos. E a saída que a direção da peça encontra pra necessidade de atualização dos cenários e pra arrematar a trama no fim de suas duas horas é realmente uma cerejinha no topo do bolo! 


As perucas e roupões de cetim, ambos brancos, quase prata, são detalhes extremamente interessantes de serem associado a personagens figurantes de uma peça. Quer dizer, a "produção", que mexe nos móveis, coloca tapete, anima plateia... geralmente veste preto, ou qualquer outra coisa que não os distinga do escuro do palco, mas em I.N.R.I, a "produção" tem uma identidade construída numa despersonalização proposital. 

Não é possível chamar somente de contrarregras as figuras do pessoal da produção. O detalhe de todos usarem óculos escuro impede ainda mais que se crie uma impressão individual para os quatro ou cinco personagens espalhados ao redor da plateia, de forma que a gente até pensa que são clones uns dos outros. E é isso. É que esses personagens também reproduzem os mesmos discursos ao longo da trama, e fazem alusão à propagação do senso comum, totalmente irracional, em que as teocracias se sustentam. 

Pra mim, é a sacada mais simples e óbvia e, portanto, mais genial da segunda parte dessa trilogia. Toda vez que se ouve falar do ser supremo, se ouve junto o Aleshom! da produção. Toda vez que solicitado pelo protagonista da cena, o mar de aplausos da produção invade o teatro. Toda vez que se manda rir, ou vaiar... Toda vez que se manda, a produção obedece de pronto, e faz o público obedecer também. Eu obedeço, mesmo contra minha vontade, bato palma, vaio, rio: afinal de contas, sou só um no meio de uma gente bizarramente intimidadora. Aleshom!

Talvez essa função pareça mais óbvia quando se pensa no teatro... mas aqui, dentro do contexto da peça, não tem nem perigo de essa construção de personagem ter sido por acaso. 

O espetáculo de Fecundación termina de forma divertida e festiva, e convida a todo mundo que o prestigia a celebrar também o sucesso do Coletivo Semmedo e de sua peça, que superou os desafios intrínsecos a fazer arte no Brasil. O desfecho da trama fica, talvez, para a parte três, já ansiosamente aguardada por mim, que, com certeza, vou querer ir ao TUPA de novo, assistir mais de uma vez.