meus olhos, ao ter com outros olhos,
têm um infame sentimento de familiaridade
onde quer que eu olhe, reconheço-me
(desta vida, e de outras que fui)
nos corações batendo depressa,
e nos corações quase parando.
tudo sou eu
eu sou o algoz, e sou o torturado
eu sou o que quase não toca o chão
e sou o que rasteja nas calçadas
sou o miserável faminto
e o que lhe atira uma moeda
eu sou o padeiro
sou sua esposa
e sua amante
eu sou a viúva,
sou o defunto
e seu assassino
eu sou o sortudo que ganha
o desesperado que pula
eu sou a professora, o aluno
a enfermeira, o enfermo
eu sou a diarista
sou a criança que trabalha
e quem a obriga a trabalhar
e sou o policial que atira
e o pobre que morre
sou aquele que precisa da palavra
e o que silencia, e observa mudo
sou a mãe que sofre a dor do parto
e o filho que parte, quando nasce
eu sou meu pai
e minha mãe
e sou minha irmã
desvendado o coração de todos, que eu sou
resta saber se sabem, se sei:
e eu?
quem é que eu sou?
