Aos solavancos na rodovia e de costas dobradas nos trilhos, luto contra a sombra dos meus próprios dedos. O chão é instável.
Estou tentando me retratar. Minha melhor poesia é a catártica. Eu entre uma palavra e outra revezo entre um instante sóbrio e outro momento num ônibus os eventos de viver. Tudo se dá em intervalos de tempo, em curtos momentos pra respirar. Pra anotar mais do que rabiscar.
Procuro forças nos braços porque meu traço é forte e até isso influencia a qualidade do que escrevo. Quem dita tudo é o contexto. As vaidades e os amigos que faço, os inimigos que crio e a página que sujo de vômito…tudo em breves instantes.
Me sinto cheio de vida morta. Meu olho baixo talvez não seja só bebida. Só tenho problemas com o álcool depois que ele desce a garganta. O álcool é inofensivo. Tem uma história de que passa mais rápido o tempo. MENTIRA. Só não guardei memória alguma e ainda bem. Nada me foi breve. Tudo foi uma eterna tortura, mas eu nem me importei. Na verdade, não me importo. Meus amigos sim. Por isso estou tentando me retratar.
Vomitei, cuspi na folha, pulei na frente do trem. Só mais um dia…
Pindoretama, 8 de setembro de 2022