"Ou acelera e passa logo, ou freia e espera eu passar". Expedito não contava amizades com nem uma vagarosidade, andava quase sempre esbaforido entre uma tarefa e outra, odiava perder o tempo que a sua condição humana impunha por não permiti-lo teletransportar-se ou por obrigá-lo a caminhar as mais curtas distâncias que fossem. Queria viver de destinos... Seu destino era engolir, não comer. Seu destino era acordar, não dormir. Seu destino era logo atravessar a rua e chegar do outro lado e chegar logo onde queria chegar, e era esse um dos maiores desaforos do seu dia: o momento de atravessar a rua.
Agora eu penso: por que é que todo personagem que eu escrevo exige de si uma característica elevada ao seu máximo? Por que é que essa não pode ser a história de um rapaz que teve muita pressa de atravessar uma rua, simplesmente? Há de ser a história de alguém que atravessa a rua e sempre anda com muita pressa e, portanto, isso deve significar que essa pressa lhe desgasta toda a personalidade e então fico eu com a sensação de que estou escrevendo um ensaio sobre a pressa muito mais do que o conto de um rapaz que se afobou numa dessas ruas de Fortaleza que tiram mesmo a paciência da gente.
Pois pronto, deixe-me confessar logo, nunca teve Expedito nenhum. Eu é que, na condição de me dar a extrema desimportância (ou mesmo na timidez pela envergonha de mim mesmo), preferi esconder que nunca teve Expedito nenhum, eu é que me apresso em passar as pistas e me enraiveço de uma ira colérica por muita pouca palhaçada como essas. Conto de Expedido esperando que vocês também logo o zombem, e eu vou receber somente as glórias aquelas que o escritor recebe. Pois bem.
Pensei que fosse escrever uma crônica de um hoje mais cedo em que me estressei ao tentar cruzar a Avenida 13 de Maio. Hoje eu me estressei na 13 de Maio e ontem também. E tenho fiel a certeza de que, igualmente, me estressarei nessa porcaria de avenida amanhã. Não se conhece um único fortalezense que seja feliz ao longo dos eternos quilômetros que se estendem nesse trecho da cidade.
Me deixem justificar um pouco, também. Era meio-dia, eu estava com fome, dormi pouco a noite, tinha mil e uma tarefas pra entregar e o sol também não ajudava e olha, aparentemente eu talvez esteja escrevendo o meu próprio personagem agora como se ele fosse a encarnação do aperreio... Quer dizer, eu estava aperreado e estava a pé. E os bonitos, de carro, com tanto espaço e acelerador, não passavam logo pra deixar que eu aproveitasse também e atravessasse logo a bendita da rua.
Já impaciente, no último cruzamento antes de chegar em casa, nenhuma faixa de pedestres perto. Expedito teve de passar a rua no meio dos carros mesmo. Se isso for algum crime, foi ele quem o cometeu. Ou alguém acha que eu me colocaria como criminoso no meu próprio texto?
O cérebro da gente deve ter alguma trava de segurança que impede que nós simplesmente nos joguemos no meio de uma avenida tão movimentada como a 13 de Maio sem que ele tenha algum grau de certeza de que nós vamos chegar vivos do outro lado. É nessa que Euxpedito conta os carros. Quando o fluxo dá uma apaziguada, sempre sobra uma lesma que sabota o plano de atravessar, porque o cérebro hesita em decidir se dá tempo ou se vamos acabar virando farofa.
No penúltimo carro (um sedan qualquer coisa, desses que a classe média gosta), Expedito, batendo o pé, começa a atravessar. "Ou acelera e passa logo, ou freia e espera eu passar", esperando que essas palavras sejam como um feitiço que desacelere os automóveis ao vê-lo caminhar tranquilamente na pista. Quase uma afronta, ele, com sua armadura de carne e osso e líquidos, versus os carros e suas vestes de petróleo. As palavras eram seu cajado. A 13 de Maio, seu Mar Vermelho.
Um final feliz: atravessou. Alguém pode ter achado que eu mataria Expedito. O cérebro fez o cálculo certo, mas seu desacato também não tinha saído de graça. Do meio da pista, o carrão o afrontava de costas, e Expedito lia na placa somente as três primeiras letras, como um insulto: PNC.