Tirei as cortinas de dentro das caixas meio mofadas, estavam atrás do guarda-roupa. Depois de três anos acordando com o sol invadindo minha janela, decidi hastear as cortinas que também durante a noite escureciam ainda mais o meu quarto.
Me percebi num desses momentos chave da vida. Que os nossos peitos viram um espaço muito maior do que a contingência de um quarto, e se tornam um pro outro um abrigo. Não como num cofre em que se esconde um metal do mundo, mas como a própria cama em que se dorme num dia de intensa chuva, sob o abraço macio e quente de uma coberta.
Por mais que uma cama estreita não nos coubesse com todo o conforto, isto não é uma carta de desamor.
Isto é mais como uma carta de desabafo. Duas vezes, uma andorinha, hoje, me sobrevoou a cabeça. E me pareceu que queria dizer, como faz com certa frequência, que já era hora de escrever. As andorinhas e os outros pássaros me dizem muito mais do que os carros. Mas passei a notar melhor os carros, passei a identificá-los e a guardar essa informação na memória, como fiz também com certos tipos de remédios. Também assim as linhas de ônibus, as topiques e vans, os treinos de peito e demais membros superiores, os trechos da Parquelândia, os sons palatalizados da consoante pós-alveolar, também assim com os cachorros salsicha.
Não consegui me acostumar, entretanto, com as avoidanças. Todas elas, que no começo pareciam temer mais a aparecer e que se tornaram frequentes. E sempre hesitei a me perguntar o que mudou. Muita coisa muda mesmo entre um instante e outro, somos todos assíduos mesmo é na façanha da inconstância. Ou da constância na impermanência. Ou na impermanência no permanente... a lista poderia ser infinita. As coisas todas mudam, mesmo o azul do avesso das tuas pupilas, que contamina o verde do avesso das minhas. Verde e azul talvez tenham novos significados agora. Eles têm.
Pra mim, no entanto, continuei certo de uma amizade saudável. Uma que, apesar de já nem mais chamar o garçom, tinha me feito finalmente tirar de dentro das caixas as cortinas que me ajudaram a debandar o sol da manhã. Ninguém merece acordar mais cedo do que o necessário, então, por isso, obrigado.