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O avesso das nossas pupilas (ou Cachorros salsicha p. 2)

Alguém me contou que, às vezes, amar pessoas parece mais com a ansiedade de amar algo que está morrendo, muito mais do que com a felicidade de amar algo que está vivo. 

Ela me disse que estar de luto por alguém lhe parecia como carregar um balão atado ao dedo. Que o balão, por sua altura, ninguém poderia enxergar, que somente ela sabia da existência dele. E mais: que é fatigantemente desconcertante a sensação de haver um tipo de rastro cobrindo certos lugares, lugares estes que, no luto, viram estações de uma marcha fúnebre. "Como se fosse um tempero.. como se alguém o tivesse pitado por sobre as coisas, e agora, essas coisas são também rastro desse alguém."

Eu a respondi com toda a mansidão que nasce da certeza do sim. Há temperos de vários lutos espalhados pela cidade. Especiarias das mais especiais e das mais variadas espécies. Coisas que erupcionam em sua tenra felicidade e que viram, com o tempo, coisas das quais se finge esquecer e de que se recusa-se lembrar.

Ela me contou de copos antigos, mesas de bar... Eu a respondi com a euforia que nasce da saudade e lhe contei também como alguns cachorros me chamavam mais atenção do que outros, como eu brinco com certas palavras: todas essas coisas salpicadas de luto. Mas eu gostaria de adicionar algo mais.

Acho que existe algum modo mais profundo e, ironicamente, belo, de se deixar ter sido atingido pelo que um dia se é melhor esquecer. Isto é, se alguns cães ou lugares da cidade são gatilhos de um luto, essas coisas são específicas demais e poderiam, de certa forma, serem evitadas. Pra mim, entretanto, é impossível não mais reparar na diversidade dos tons de azul. Pra mim os carros não são apenas uma massa única de máquinas correndo as estradas, mas reconheço muitos deles, suas particularidades e coisinhas que estavam antes ocultas das minhas retinas.

Isso porque amar alguém é (também) vestir-se em sentidos desse alguém. E então amar muito alguém é deixar seus próprios sentidos serem transformados pelos sentidos desse alguém. 

Pois agora eu vejo o mundo com uma lente extra, que não ignora mais os carros, ou o azul espalhado por aí. Uma lente que me permite ver muito mais do que apenas enxergar.