Numa família de poucos abraços, embora eu bem saiba que não tive fome, nem lombriga, nem piolho nem anemia, me sentia sempre em falta de algo. Se tive pulga e micose, foi da teima em ser como bicho e andar descalço trocando cargas com a terra.
Minha mãe até hoje não sabe falar muito bem dos próprios sentimentos, mas me abraça quando eu volto pra casa, porque a saudade aperta muito forte e ela sente que me deve apertar mais forte ainda e isso fala tudo. Calculam que a língua portuguesa tenha mais de 380 mil palavras, fora as muitas não catalogadas. Como pode ser que, dentre elas, não haja uma palavra que não custe ser dita? E que lindo são as palavras que nem precisam mais existir quando minha mãe me abraça. Eu comecei a engolir palavras muito cedo, e elas, de vez em quando, tentam me engolir também, então as escrevo.
Escrevo pra conseguir viver , para além de sobreviver. E escrevo de mim, porque, se eu não o fizesse, eu não existiria. Escrevo, principalmente, pra desatar os nós de mim, e isso quase nunca é tarefa fácil. O mundo não é, senão, um grande amontoado de palavras com as quais eu danço e contra as quais eu luto pra continuar existindo.
Por muito tempo, ainda pra mim o mundo não havia se revelado senão em sua voluptuosa mesquinhez e impiedade. É certo que o sentimento de algumas pessoas não se faz cerimônia em machucar. Ainda ontem me vi no espelho de uma cor que não se deseja, uma cor que não se deseja, de uns olhos que não são bonitos, de uma criança de quem nunca se disse: que lindo! e hoje me faço todo o trabalho penoso de olhar nesse espelho e mentir descaradamente. Meus braços falhavam por não serem fortes, meu cabelo falhava por não ser arrumado. Meu jeito falhava por não ser negão.
Eu acho que se o jornal parasse de falar de racismo, ele acabaria.
Minha mãe me disse essa frase algumas semanas atrás. E, de todas as mais de 380 mil palavras da Língua Portuguesa, alguma se entalou tão forte no meu peito que eu não soube o que falar. As palavras da minha mãe enfim me engoliram. Eu não soube desatar esses nós. Eu deveria saber? Existe alguma combinação possível dentre essas 300 mil palavras que dê conta de desatar um nó de 500 anos?
A memória mais antiga e bonita que tenho com a minha mãe, é claro, conscientemente, é a de correr pra abraçar ela depois de assistir a abertura de um desenho na tevê onde o protagonista fazia a mesma coisa. Ele abraçava a sua mãe. Minha mãe, pega de surpresa, me abraça sem nenhuma noção de que, vinte e poucos anos depois, eu estaria escrevendo sobre esse momento, talvez, tão desimportante. Ela também está completamente envolta, emaranhada, engolida pela palavra racismo. Minha mãe, uma mulher. minha mãe, negra, parda, preta não.
Minha mãe, uma mulher parda, negra? Minha mãe, uma mulher. Minha mãe... minha mãe foi abraçada pela mãe dela? Minha mãe escutou quando criança que era linda? Minha mãe se sente desejada? O sentimento da minha mãe se faz cerimônia em machucar? Ainda pra ela o mundo não se revelou senão em sua voluptuosa mesquinhez e impiedade.
Finalmente, depois de muito tempo, eu desatei a palavra racismo.
Há alguns anos eu me dava conta de que eu era preto. Foi num dia triste. É esquisito dizer, porque eu sempre soube do racismo. É esquisito dizer isso, porque eu sempre tive espelho em casa. Os espelhos nunca tinham me dito que eu era preto. Na verdade, ninguém nunca tinha me dito isso. Num dia triste, uma professora me falou que eu era preto e, então, o mundo mudou de cor. Eu entendi por que eu sempre me calava nas discussões. Entendi por que eu me achava feio. Entendi por que eu não recebia atenção e entendi por que eu não era bem recebido em certos locais. Entendi a sutileza do racismo nas relações que a gente tem todos os dias. Isso só aconteceu pouco mais de dois anos atrás, quando eu entendi que deveria falar sobre racismo, pra não deixar ser engolido. Então, agora, minha mãe me acha um chato.
Já fui chamado de louco, de vitimista... mas é o que fazem os racistas quando a gente entende como é que funciona o jogo deles. Um jogo que, quando uma sociedade é racista, as pessoas podem nem saber que estão jogando. No dia da consciência preta, escrevi essas palavras, porque falar de racismo é só o pontapé. E a data não é pra cobrar dos racistas que eles não podem ser racistas, mas pra lembrar aos pretos que eles são pretos. É um dia feliz pra se dar conta de que é preto.
E, não podendo desatar na minha mãe um nó que eu mesmo levei mais de vinte anos pra perceber que existia, eu não encontrei nenhuma palavra que lhe fosse amável. E, quando pude, lhe abracei mais forte do que a saudade, e deixei que isso, por si só, falasse.
Abracei minha mãe quando ela nem esperava ser abraçada e decidi, também, lhe fazer existir quando a escrevo nessa poesia. Minha mãe, uma pessoa a quem os livros não condecoram. Minha mãe, uma mulher preta, que lava, arruma, cozinha, cuida, que poucas vezes deve ter ouvido que era linda, que poucas vezes deve ter se sentido desejada, que tantas vezes foi engolida pelo mundo e pelos próprios sentimentos, virou essa poesia que já foi, numa outra ocasião, apenas um grande entalo no meu peito e que eu não aceitei que me engolisse.